
A Mudança
Toda a minha vida tentei perceber o mundo, o modo como ele se move e, sobretudo, para onde ele se move. Percebo agora que a razão da minha curiosidade, se outros motivos não houvessem, estava agora posta a nu. Parece que se sentia um anúncio em ruído de fundo relativamente ao grave momento para o qual caminhamos, o momento que eu chamo de Apocalipse nesta nau que é Portugal. A nossa civilização tal como a conhecemos está a chegar a um fim e o fim está muito próximo. Não se sinta, porém, o leitor deste meu texto mais assustado do que deve. Sempre preferi conhecer as circunstâncias que me rodeiam com uma certa antecipação do que assumir a posição de assobiar para o lado e prosseguir como se nada estivesse a suceder. Por outro lado, não faço parte do grupo de pessoas que entende que o destino está escrito e que, incontornavelmente, independentemente de qualquer acção será sempre aquele que havia sido pré-determinado. Não ligo nada disto a qualquer razão religiosa ou esotérica e, nessa medida, os meus textos não professarão nada diverso do que evidências objectivamente comprovaveis.
Em primeiro lugar, os sinais de que algo mau está para acontecer fazem parte do nosso quotidiano, encontram-se nos mais pequenos gestos de gestão corrente das nossas vidas e neles reflecte-se incontornavelmente a subida dos preços e um clima de crescente desconfiança em relação ao futuro. A grande diferença em relação às demais crises pelas quais a humanidade passou é que desta, calculados todos os dados em jogo, não se encontra uma saída sem que os danos sejam de tal modo irreversíveis que não deixem de significar a perda da próprio civilização.
O preço da energia sobe diariamente, os alimentos também, a população humana no nosso planeta atingiu níveis de insustentabilidade. Para todos aquele que entendem que ainda é possível encontrar alternativa aos combustíveis fósseis - que cada vez mais se tornarão inacessíveis -, esclareço, desde já que isso não acontecerá. E, mesmo que venha a acontecer, tal substituição não vai ser feita nos moldes que desejavelmente seria necessário para que ocorresse uma transição suave e indolor. De todo o modo, o próprio esgotar das reservas energéticas que nos proporcionam esta vida fácil e confortável é em si um problema bem mais profundo e que reflecte a própria necessidade de paragem do ritmo em que a humanidade, na sua atitude ultra predadora, vai sorvendo os recursos finitos de um planeta sem dimensão para tamanha suicida atitude em quantidade e qualidade.
Vejamos alguns factos. Pode não saber o leitor, mas o fabrico do próprio teclado onde vou digitando este texto, teve um custo energético que se pode expressar numa determinada quantidade de petróleo, as próprias máquinas que o fabricaram também, os camiões, aviões ou barcos que o transportaram também, até o posto de venda da Worten onde o comprei representou um consumo de energia para ser produzido e mantido. Finalmente, tudo isso tem importância porque este teclado foi, á semelhança do que cada vez mais vai sucedendo, fabricado na China.
Bem, mas eu, posso muito bem passar sem este teclado ou até sem um computador pessoal, mas poderei eu passar sem medicamentos e alimentos baratos? É que um dos grandes problemas da subida do preço do petróleo tem directamente a ver com o encarecimento de tudo que dele dependa para ser produzido e, o problema é que quase tudo depende dele para ser produzido.
Assim sendo, podemos dizer adeus à difusão e acessibilidade de cuidados médicos que hoje nem damos importância. Podemos também despedir-nos dos alimentos acessíveis, alguns deles transportados de locais bem longe de onde vão ser vendidos e consumidos. Mas o problema do encarecimento dos alimentos não tem apenas a ver com a inevitável subida dos preços dos combustíveis que vão ser utilizados nas máquinas e alfaias agricolas que os vão produzir, tem também a ver com os pesticidas e fertilizantes com origem nos hidrocarbonetos que facilitam e incrementam a sua produção em qualidade e tamanho. Pparalelamente, a equação do problema dos alimentos tem ainda outras componentes, tais como as alterações climáticas que em determinados locais do planeta significarão desertificação e noutros significarão pura e simplesmente inundações, incêndios, estações do ano atípicas.
Por último, a água. Já há muito que a água potável é um meio escasso face à sobrepopulação que invadiu o planeta e a água é um bem fundamental para que se possa produzir alimentos.
O que se seguirá será a fome mais ou menos generalizada, sobretudo nas grandes cidades que, desprovidas da logística barata que permitia distribuir os alimentos baratos que eram produzidos noutros locais, não mais poderão oferecer alimentos face à procura dos seus habitantes. Com a fome, as doenças, o desemprego, as
dívidas bancárias, surgirão violentos tumultos sociais sem esquerda e sem direita, pois deixa de existir lados opostos do espectro político mas apenas uma política que será a política da sobrevivência e sobrevivência a qualquer custo.Tudo isto acontecerá com uma gradual perda de poder prático por parte do Estado que, impotente, ver-se-á impossibilitado de manter a ordem, a justiça e oferecer protecção aos mais fracos, aos proprietários, às famílias esfomeadas. O próprio Estado tenta hoje de um modo desesperado cobrar impostos para continuar a manter uma máquina que permita corrigir as assimetrias sociais. Mas é o mesmo Estado que, na sua cegueira, continua a apregoar obras faraónicas para colocar Portugal no mapa da globalização que está prestes a morrer.
Sim, a globalização é uma fraude! Todo o processo de uma economia global está assente no pressuposto do petróleo barato que, como vimos vai deixar de existir. Os próprios analistas prevêm que o preço do barril de crude atinja a barreira dos 500,00 dólares ainda antes de 2012. MAs, verdade é que, basta atingir a barreira dos 300,00 dólares por barril para que a economia e a própria civilização deixe de funcionar nos moldes em que a conhecemos.
Imaginemos um casal tipicamente português com idades compreendidas entre 30 e 40 anos. Este casal tem dois filhos e moram numa casa que compraram há cinco anos (em 2003) num dos suburbios, a cerca de 30 quilometros de Lisboa. O José e a Fátima, chamemos-lhes assim, trabalham ambos no sector terciário, em Lisboa, para onde, todos os dias, depois de deixarem os filhos no colégio suburbano, deslocam-se na sua viatura para trabalharem. O casal tem como rendimento médio global 1.750,00 euros.
Como vimos, este casal, de modo que possa trabalhar, paga colégio para os seus dois filhos menores, um de 2 e o outro de 4 anos de idade. Imaginemos que no total das despesas com o colégio (alimentação incluída) paga o casal cerca de 600 euros. Nenhum dos elementos do casal tem carro de serviço da empresa, pelo que deslocam-se em viatura própria, a suas exclusivas expensas. Viatura essa do segmento familiar e a diesel que adquiriram através de crédito bancário, pagando uma prestação que ronda os 400,00 euros. Não nos esqueçamos que todos os dias a viatura percorre uma distância de 60 quilometros, equivalente à ida de casa para os empregos e a respectivo regresso, ou seja, no final do mês percorre, no mínimo, 1320 quilometros (22 dias úteis x 60 kms/dia). Se esta mesma viatura consumir em média 6 litros de gasóleo por cada 100 quilómetros e o litro de gasóleo rondar os 1,5 euros, então esta família, em combustíveis para a sua viatura tem o encargo mensal de aproximadamente 120 euros. Até este momento já consumimos mais de 1000 euros do budget familiar mensal e ainda nem sequer contabilizámos a prestação do crédito à habitação, taxa de condomínio, seguros de saúde, a eventual prestação do cartão de crédito e o dinheiro gasto com alimentação e vestuário. Toda a economia familiar deste exemplo que aqui trouxemos assenta num enorme sobreendividamento e uma extraordinária susceptibilidade a tornar-se incomportável perante qualquer factos que agrave o preço de cada uma destas parcelas de despesa.
Relembro ainda que, quando a casa foi comprada, o casal contraiu um empréstimo de 150.000,00 euros e o imóvel foi avaliado pela instituição financeira no valor de 200.000,00 euros. Tinham a normal expectativa do mercado que um dia a iriam revender com lucro. ora, tudo isso se modificou, não só a casa está actualmente avaliada em menos do valor que por ela pagaram, como a taxa de juro que onera o mútuo bancário está muito mais alta do que aquela que existia ao momento da compra.
Resta ao casal prosseguir em frente até ao momento em que deixem de pagar os seus empréstimos. E, isto tudo, se não acontecer uma doença ou o despedimento de um dos elementos do casal. O ponto de ruptura está muito próximo e embora não seja verbalizado de forma ostensivamente directa e objectiva, ele é expressado no olhar, nas depressões das pessoas e na ausência de felicidade. Mais que tudo isso ou tudo isso junto: na ausência de futuro.

Perguntamo-nos que será deste país e de nós quando todo este festim causado pela energia barata e acessível modificar o nosso modo de vida? De que podemos nós prescindir e ainda assim continuar a viver?
Da Absoluta necessidade de uma nova organização

A imprevisibilidade é o factor que mais acompanhará a mudança que se avizinha e conforme já tive oportunidade aqui de o dizer, o mundo tal como o conhecemos já começou a deixar de existir. Nesse sentido, poder-se-á dizer que se trata do fim do mundo. O que, necessariamente, não significa o fim da humanidade. Mas significa o fim do conforto, da saúde barata, da alimentação acessível e dos grandes mitos da democracia e da solidariedade entre povos e pessoas.
Como viver estes novos tempos? Que podemos fazer para amenizar toda esta crise que se aproxima? O que quer que seja que façamos, devemos fazê-lo pensando que o petróleo vai acabar a breve trecho para nós e, quando digo acabar, equivale a dizer que vai deixar de ser acessível como factor de produção ou sob a forma de energia acessível a todos nós.
Os portugueses necessitarão de viver em locais que se situem perto dos locais onde trabalhem. Os transportes familiares serão tendencialmente substituidos pelo recurso aos transportes públicos: os combóios, os autocarros. Por todo o lado, uma enorme legião de carros permanecerão parados junto das casas dos portugueses. Os carros (muito brevemente) deixarão de ter utilidade prática e valor de troca e, em minha opinião, a produção em massa de carros exclusivamente eléctricos não chegará a tempo de substituir toda a enorme frota automobilistica portuguesa. Além do mais, nesse cenário serão os próprios Bancos que não concederão créditos para aquisição de viaturas aos particulares.
A Julho de 2008 o governo Português estabeleceu um protocolo com o grupo Nissan/Renault com vista a produção em série de um veículo exclusivamente electrico, com autonomia para cerca de 160 kms. Segundo o site da RTP "A justificação dada pela Nissan/Renault para a introdução no nosso país deste veículo totalmente eléctrico teve a ver com a dimensão de Portugal, também a boa rede viária e a grande aposta nas energias renováveis ao mesmo tempo que se verifica a excelente abertura dos portugueses a novas tecnologias.". Muito bem. De todo o modo, nada disso resolve a verdadeira questão do transporte de mercadorias. Se bem me lembro, as viaturas ligeiras continuaram a circular quando os camionistas sequestraram literalmente Portugal de acordo com as suas medidas de protesto contra a escalada dos combustíveis. Vejamos, o que verdadeiramente interessa é a cadeia de distribuição dos alimentos e das matérias primas e, essa, como bem se sabe é feita essencialmente através das redes de camionagem. Como se pode verificar, não se falou em aumentar a rede de transportes ferroviários de modo a assegurar o contínuo fluxo dos alimentos e das matérias primas, nem sequer se falou em projectar veículos pesados de transporte de mercadorias e de passageiros eléctricos e mesmo que assim fosse, olhando para o projectado carro da aliança franco nipónica, que transporte de mercadorias poderia ser feito num raio de autonomia que ronde os 160 quilometros.
Ao momento em que escrevo este texto, Julho de 2008, vão-me chegando sinais que confirmam o destino para onde caminhamos - a passos largos. Segundo o Jornal de Negócios , "A Estradas de Portugal (EP) divulgou o tráfego médio diário de Junho, onde a tendência é “claramente” negativa. O Millennium bcp acredita mesmo que essa evolução vai continuar no segundo semestre de 2008 e estender-se aos primeiros meses de 2009.". O mesmo artigo jornalistico continua dizendo que "Este declínio de mês para mês acontece numa altura em que o mundo atravessa em geral uma crise, principalmente no que diz respeito aos preços da gasolina e gasóleo. (...) Tudo porque, o petróleo quer em Nova Iorque quer em Londres já valorizou mais de 50% em 2008 o que representa muitos aumentos para os combustíveis. Na passada quinta-feira, o crude tocou um novo máximo nos 145,85 dólares, enquanto o “brent” atingiu novo recorde nos 146,69 dólares." (vide http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=323056).
Segundo aquele jornal, a APETRO- Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas disse mesmo que os preços dos combustíveis deverão continuar a subir dada a evolução das cotações do petróleo nos mercados internacionais. Nada de novo, tudo igual.
Se me permitem o conselho quem actualmente pensa em comprar carro faça uma leitura correcta do mundo e abandone de imediato essa ideia. Não há-de demorar muitos meses até que os bonitos bólides cheios de cavalinhos a diesel ou a gasolina sejam absolutamente inúteis e obsoletos. Estes são os últimos dias da indústria automóvel tão amiga que é das empresas petrolíferas. Eles sabem que estão a viver o último fôlego mas contam com a cegueira e incredulidade popular perante o cenário que se avizinha para venderem os seus stocks.
O abaixamento do ISP não é, de modo nenhum solução para o problema dos combustíveis fósseis caros. Se há um imposto que deve permanecer caro é precisamente o ISP. Por um lado, porque expõe a doença ou coloca o problema a nu e, por outro lado, fomenta que a própria economia, o Estado e os particulares procurem novas soluções de transporte e reajustem-se o mais depressa possível ao momento que vivemos e ao pior dos cenários que viveremos no futuro. Mais do que camuflar a doença é trabalhar de imediato numa cura duradoura. Além do mais, mesmo que os governos, a reboque dos inúmeros protestos e tumultos sociais que aqui e ali vão eclodir, se acabarem por baixar o ISP ou mesmo o IVA que onera os combustíveis, verificar-se-á que tudo isso será Sol de pouca dura, posto que a inevitável cavalgada de subida do preço do petróleo num ápice vai sorver o beneficio de descida de preço por alívio de carga fiscal. Temos de inculcar a ideia que o tempo do petróleo mais barato nunca mais regressará, independentemente de qualquer acção ou omissão por parte dos governantes. Neste cenário seria preferível que o dinheiro cobrado pelo ISP fosse canalizado para dotar o país de alternativas (verdadeiras), que se desenvolva uma efectiva e eficaz rede de transportes públicos .
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